Maria das Graças Ribeiro Bittencourt é mãe da jovem Milena Bittencourt, assassinada a facadas no dia 15 de setembro de 2007 pelo ex-namorado, Jardel da Pureza de Souza. O caso teve grande repercussão no estado e há um ano Maria das Graças travou uma incansável luta por justiça. Em entrevista ao Camaçari Notícias, ela fala da filha, de como era a relação entre as duas e dá detalhes da angústia que tem vivido desde o dia do assassinato. " Você quer saber como eu me sinto? Me sinto mutilada".
Como era Milena Bittencourt?
Milena era uma pessoa apaixonada pela vida. Tinha 26 anos, era extrovertida, brincalhona, e adorava crianças. Uma menina carinhosa com os amigos, com a família e que gostava de ajudar as pessoas pobres. Ela já era formada em administração de empresas e estava cursando o sexto semestre de psicologia. Mile adorava estudar e ainda queria cursar a faculdade de direito. Era muito autêntica, conselheira. Seu grande sonho era ser mãe, dizia que ia me dar uma netinha linda. Ela já tinha até comprado uma roupa de bebê toda rosinha e também tinha escolhido o nome: Marcele Vitória.
E a sua relação com ela?
Nós tínhamos uma relação muito aberta, ela era minha amiga (...), muitas vezes me aconselhava, cuidava de mim. É difícil falar sobre isso (...) ela me faz muita falta, já são um ano e seis meses de solidão, tristeza, dor e revolta. As pessoas dizem que o tempo ameniza a dor, mas para mim ele só aumenta o vazio porque a saudade é cada vez maior. Tem gente que sugere que eu mude de casa, mas não adianta, aonde eu for, ela estará comigo.
Como era o namoro dela e de Jardel Pureza?
Os dois namoraram um ano e quatro meses, mas eram muito diferentes. Milena uma pessoa extrovertida e ele bem mais reservado. Ele me enganou, demonstrava uma coisa e era outra, mas eu sentia que algo nele não era verdadeiro. Uma vez, estávamos na cozinha lá de casa e eu disse que ele tinha uma capa, pois demonstrava ser uma pessoa tranqüila, mas por dentro eu via nele uma grande inquietação.
Na minha presença eles nunca brigaram, mas fiquei sabendo de muitas coisas, que eles discutiam por ciúmes. Ele é o oposto de Milena, as pessoas me dizem que ele desejava a vida que ela tinha. No dia 15 de março de 2007, ela terminou com ele e foi espancada, chegou a ficar internada três dias. Mesmo depois disso, ele a procurava, não aceitava o fim da relação. Ele diz que morou um ano com ela, mas é mentira.
Quando viu sua filha pela última vez?
Foi na sexta-feira, dia 14 de setembro de 2007, um dia antes do assassinato, quando passei na faculdade dela para deixar a chave do apartamento (..) Me pediu para vir com ela para Camaçari no dia seguinte, mas eu tinha compromissos profissionais e não pude. Sábado eu a aguardei para almoçar, mas quando deu três horas da tarde e vi que ela não tinha aparecido, comecei a ficar preocupada. Ligava pro celular e caía na caixa de mensagem. Estranhei, pois ela nunca ficou sem me ligar.
E o que a senhora fez?
Chamei uma amiga para ir comigo a Salvador à noite, mas ficamos com medo da estrada e deixamos para ir no domingo pela manhã. Quando cheguei lá que não vi o carro da minha filha, pensei que ela tivesse ido para a praia, pois uma mãe só pensa no bem do seu filho, nunca imagina uma tragédia. Voltei para Camaçari, liguei para os amigos dela, mas ninguém tinha notícias. À noite, quando liguei para a portaria do prédio em Salvador e o porteiro me disse que tinha algo estranho por lá, me desesperei. Ele disse que tinham muitos policias, mas não me falou o que estava acontecendo.
Cinco minutos depois a delegada me ligou para dizer que tinham encontrado o corpo. Eu perguntei: que corpo? (...) Eu queria minha filha viva, eu não entendia o que ela estava falando. Meu filho caçula que tinha 16 anos na época foi quem pegou o telefone e conversou com ela (a delegada). Eu fiquei em estado de choque e ele passou mal. Comecei a ligar para parentes e amigos para nos ajudarem. Eu não tinha condições de nada.
Quem reconheceu o corpo de Milena?
Minha irmã mais nova que foi até Salvador para reconhecer minha filha. Segundo relatório do IML, Mile levou 37 facadas. O monstro confessou que teria chegado ao apartamento depois de 13h30, os dois discutiram e em seguida ele a matou. Eu nunca tive condições de olhar as fotos que constam no laudo do processo. Aquele monstro ainda enrolou Mile no edredom que ela mais gostava, limpou toda a cena do crime...eu fiquei impressionada com a frieza dele...não posso chamar esse homem de ser humano...um ser humano não faz o que ele fez com Mile. E que ninguém me diga que ele a amava...quem ama não mata.
Como a senhora reagiu a tudo isso?
Nos seis primeiros meses, eu dormia direto. Por conta própria, tomava seis comprimidos de remédio controlado por dia. Só acordei para lutar por justiça. Hoje faço terapia com uma psicóloga, mas a dor é muito grande, não sinto fome, não tenho alegria nem prazer em nada. E a dor não vai passar nem que o assassino apodreça na cadeia, porque sei que minha filha não vai voltar.
A senhora disse que acordou para lutar. Como tem sido essa luta?
Luto por justiça, para que esse caso não fique impune. Aqui em Camaçari eu sempre vou para a praça Desembargador Montenegro, levo cartazes dela, outras famílias que perderam entes queridos assassinados se juntaram e a solidariedade é grande. Sempre uso roupas com a imagem de minha filha. Eu não consigo usar outra, às vezes até tento, mas acabo vestindo a camisa com a foto de Mile, fiz várias. Vesti-la é uma forma de carregar Mile no colo novamente. Só troco para colocar a do movimento Mães da Praça da Piedade
Esse movimento está te ajudando nesta luta?
Sim, me juntei a Marion Terra, mãe de Lucas Terra que também foi cruelmente assassinado. Toda última sexta-feira do mês nós vamos para a praça da Piedade, em Salvador, e cada uma conta a sua história. A intenção é arrecadar um milhão de assinaturas para encaminhar ao Congresso pedindo a prisão perpétua para crimes hediondos.
No dia 27 de março, a justiça concedeu um habeas corpus após o advogado de Jardel alegar que ele agiu em legítima defesa. Como a senhora reagiu a isso?
Quando fiquei sabendo, dei um grito muito grande. Os vizinhos vieram correndo ver o que tinha acontecido e quando souberam o motivo ficaram muito chateados. Uma vizinha se vestiu de preto e disse que estava de luto. Tenho medo que ele fuja.
A senhora ainda acredita na justiça?
Apesar das falhas, de saber que alguns profissionais se vendem, eu acredito. Sei que existe muita gente séria na justiça, e que esse não vai ser mais um crime que vai ficar na impunidade. Ainda tenho esperanças, preciso ter.
